A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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9 de abril de 2010

Na vizinhança do mal


Sócrates tinha razão: uma vida sem reflexão não vale a pena. A vida é provocativa, sempre.

Com o julgamento dos acusados pela morte de Isabella, fui provocada a pensar na esperança que algumas pessoas manifestavam de ouvir uma confissão dos incriminados e na expectativa pela condenação.

Um mal não punido é um mal aceito. Como viver numa sociedade que abriga o mal e o considera lícito? Se fazer o mal é uma escolha, incorporá-lo à estrutura social é intolerável.

Muito antes de toda filosofia, os homens já afirmavam, nos mitos, sua recusa ao mal, a exemplo da história bíblica de Caim, que, por inveja e ciúme, mata seu irmão Abel. Deus condena Caim. Não haveria no mundo lugar nem para ele nem para o mal.

Só o mal que fazemos sem saber e sem querer pode ser perdoado. O mal intencional, mesmo que explicado, é injustificável e só lhe cabe o castigo. Acho que nos é mais suportável viver na iminência da própria morte do que na vizinhança do mal.

Essa é a razão de muitas pessoas ansiarem por uma confissão do autor de um crime. Nela estão presentes a aceitação da culpa, os motivos e algum arrependimento. O autor do delito ganha de volta, com isso, a humanidade obscurecida pelo seu gesto. Ele pode obter ao menos a nossa compreensão.

Se alguém é responsável por um crime e insiste em negar sua autoria, parece dizer que não se importa com nosso julgamento nem julga a si mesmo.

Viver entre homens e formar com eles uma comunidade torna-se esforço sem sentido.

O filósofo Karl Jaspers por anos cobra de Heidegger uma explicação por sua adesão ao nazismo. Não quer condenar Heidegger, mas quer conhecer suas razões. Heidegger jamais lhe ofereceu resposta.

Heidegger pode não ter cometido nenhum crime, mas se colocou à parte e acima da vida social, do bem e do mal. Um grande número de pessoas age como ele quando acredita que não tem que dar satisfação de sua vida e de suas escolhas a ninguém.

Este autismo social não apenas tem sido aceito pela nossa cultura como é incentivado. É um comportamento que está na raiz da banalização do mal.

Ele cria a crença equívoca de que alguns homens são inimputáveis. Nossa política é construída sobre essa base.

A defesa da inimputabilidade é um dos mais arrogantes crimes contra a humanidade. Diferente do que fez Louis Althusser, filósofo francês que estrangulou a mulher amada durante um surto psicótico. Depois do acontecido, Althusser esteve internado durante anos para tratamento.

Quando tomou conhecimento do que fizera, inclusive de que fora dado como inimputável, exigiu ser julgado de novo. Era-lhe insuportável não se reconhecer e não ser reconhecido como o autor dos seus atos.

Quando não somos responsabilizados e julgados por nossos atos, somos despedidos da nossa própria identidade. Não temos autoria da própria existência. Não somos ninguém.

Por DULCE CRITELLI, terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Existentia - Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana.

Fonte: Jornal "A Folha de S. Paulo" de 08/04/2010.

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