A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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6 de junho de 2017

Como escrever bem (William Zinsser)




O excesso é o mal da escrita americana. Somos uma sociedade sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido. 

Quem consegue entender o linguajar cifrado usado pelo comércio americano no dia a dia, ou seja, um memorando, um relatório empresarial, uma carta de negócios, um comunicado de banco que explique o seu mais recente e “simplificado” balanço? Qual usuário de um seguro ou de um plano de saúde consegue decifrar o livreto que explica todos os seus custos e benefícios? Que pai ou mãe consegue montar um brinquedo para uma criança com base nas instruções que vêm junto com a embalagem? Nossa tendência é inflar tudo e, assim, tentar parecer importante. O piloto de avião que anuncia que em alguns minutos atravessaremos uma área de turbulência por causa das nuvens carregadas e possíveis precipitações nem sequer pensa em dizer simplesmente que poderá chover. Se a frase é simples demais, deve haver alguma coisa errada nela… 

Porém, o segredo da boa escrita é despir cada frase até deixá-la apenas com seus componentes essenciais. Toda palavra que não tenha uma função, toda palavra longa que poderia ser substituída por uma palavra curta, todo advérbio que contenha o mesmo significado que está contido no verbo, toda construção em voz passiva que deixe o leitor inseguro a respeito de quem está fazendo o quê - todos esses são elementos adulterantes que enfraquecem uma frase. E eles costumam aparecer proporcionalmente à formação e à posição social de quem escreve. 

Nos anos 1960, o reitor da minha universidade escreveu uma carta para tentar acalmar os ex-alunos após uma temporada de muita agitação no campus. “Vocês estão provavelmente a par”, começou ele, “de que acabamos de experimentar uma situação potencialmente bastante explosiva de expressões de insatisfação sobre questões apenas parcialmente relacionadas entre si”. Ele queria dizer que os estudantes vinham azucrinando a direção por causa de diversas questões. Eu me senti bem mais incomodado pelo linguajar do reitor do que pelas potencialmente explosivas expressões de insatisfação dos estudantes. Teria preferido a abordagem adotada pelo presidente Franklin D. Roosevelt quando tentava traduzir comunicados de seu próprio governo, como este decreto sobre um blecaute, de 1942: 

Esses preparativos devem ser executados de modo a deixar totalmente escuros todos e quaisquer edifícios do governo federal ou edifícios não governamentais ocupados pelo governo federal durante um ataque aéreo, por tempo indeterminado, retirando a visibilidade causada por iluminação interna ou externa. 

“Fale para eles”, disse Roosevelt, “que nos prédios onde for preciso continuar trabalhando [durante um ataque aéreo] se deve então colocar alguma coisa para tapar as janelas”. 

Simplifique, simplifique. Thoreau disse isso, como se costuma relembrar tão frequentemente, e nenhum outro autor americano praticou de forma tão consistente aquilo que pregava. Abra qualquer página de “Walden” e você encontrará um homem contando o que passa pela sua mente de forma clara e ordenada: 

Mudei-me para o bosque porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, já próximo da morte, descobrir que eu não tinha vivido. 

Como conseguir se libertar, de uma forma tão invejável como essa, de todo excesso? A resposta está em limpar nossa cabeça de todo excesso. Pensamento limpo significa texto limpo; um não pode existir sem o outro. É impossível que um pensador obscuro escreva em bom vernáculo. Ele pode conseguir sustentar o texto por um ou dois parágrafos, mas o leitor logo se sentirá perdido, e não há pecado mais grave do que esse, pois o leitor dificilmente se deixa enganar mais de uma vez. 

Quem é o leitor, essa criatura tão esquiva? O leitor é uma pessoa que dispõe de cerca de trinta segundos de atenção - uma pessoa assediada por inúmeras forças que competem entre si por atenção. Houve um tempo em que essas forças eram relativamente poucas: jornais, revistas, rádio, esposa, filhos, animais domésticos. Hoje em dia, a elas se soma toda uma galáxias de equipamentos eletrônicos destinados a entretenimento e informação - a televisão, os celulares, os tablets, os iPods - , além dos exercícios da academia de ginástica, da piscina, da quadra de esportes e do mais poderoso de todos os concorrentes: o sono. O homem ou a mulher que cochila em uma poltrona com um livro ou uma revista nas mãos é uma pessoa a quem o escritor dedicou inutilmente suas preocupações. 

Isso não quer dizer que o leitor seja limitado demais ou preguiçoso demais para acompanhar o fluxo dos pensamentos. Quando o leitor se perde, em geral é porque o escritor não foi suficientemente cuidadoso. Esse cuidado pode adquirir diversas formas. Talvez o texto seja tão excessivo que o leitor, tendo de abrir caminho em meio à verborragia, simplesmente não capte o que ele significa. Talvez a frase tenha sido tão mal construída que o leitor pode lê-la de várias maneiras. Talvez o autor tenha mudado de pronome no meio da frase, ou tenha mudado de tempo verbal, e o leitor simplesmente tenha perdido a pista de quem está falando ou de quando a ação se deu. Talvez a frase B não seja uma sequência natural da frase A; o autor, em cuja mente a conexão está clara, não se importou em fornecer o elo. Talvez o escritor tenha usado uma palavra de forma incorreta, sem se preocupar em consultar o dicionário. 

Diante de tais obstáculos, os leitores são, de início, persistentes. Recriminam-se - obviamente eles é que perderam alguma coisa, e então voltam a ler a frase desconcertante, ou o parágrafo inteiro, desmontando-o como uma escrita ancestral, tentando adivinhar coisas para seguir adiante. Mas eles não conseguem fazer isso por muito tempo. O autor, nesse caso, está fazendo com que trabalhem demais, e eles acabarão procurando alguém que seja melhor no ofício. 

Os escritores, assim, devem sempre perguntar: o que estou tentando dizer? Surpreendentemente, muitas vezes nem mesmo eles sabem a resposta. Nesse caso, devem rever o que escreveram e perguntar: eu disse isso? Isso está claro para quem depara com esse tema pela primeira vez? Se não está, é porque alguma felpa se introduziu no meio da engrenagem. O escritor claro é uma pessoa de mente clara o bastante para enxergar a coisa tal como ela é: uma felpa. 

Por William Zinsser (1922-2015), escritor e professor, colaborou com as principais publicações dos Estados Unidos e deu aulas nas universidades Yale, Columbia e New School. Publicou, entre outros, “Writing About Your Life” (2005) e “Easy to Remember: The Great American Songwriters and Their Songs” (2006).

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