A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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5 de agosto de 2013

Por que o acusado mente?

 
Narrativas e Limites
 
É fascinante a capacidade humana de explicar. Para o ser humano, tudo pode ser traduzido em narrativa que, se tomada como autossuficiente, pode até dispensar o contato com a realidade; ou mesmo resistir aos fatos.
 
Especialmente quando se trata de salvar a própria pele, o que importa a quem oferece a narrativa é a verossimilhança. A veracidade, nestes casos, em segundo plano. Ainda que a explicação seja flácida, colida com a realidade, ou ofenda o bom senso, ela é oferecida. Basta que siga apenas sua lógica interna, ainda que ao arrepio dos fatos. Nestas histórias, pé e cabeça são opcionais.
 
É assim, por exemplo, que se tenta explicar que a insatisfação de hoje é função da felicidade de ontem e da ignorância de anteontem. A insatisfação derivaria da busca incessante de melhorias antes desconhecidas. Segundo essa narrativa, aqueles que protestam hoje, o fazem porque eram felizes e não sabiam. Avanços sociais de hoje seriam fonte de insatisfação futura. O sucesso de hoje, portanto, é o protesto de amanhã.
 
Não espanta a tentativa de oferecer versões e narrativas distorcidas e divorciadas da realidade para explicar fatos inconvenientes. O que talvez seja mais significativo é que as explicações, em sua maioria, têm se baseado em três estratégias: negação dos fatos; transferência de responsabilidade; e teoria conspiratória.
 
A negação dos fatos tem sido sempre a primeira linha de defesa. Números são ignorados. Estatísticas são distorcidas. Cálculos são camuflados. Cria-se em planilhas eletrônicas uma realidade paralela que, lamentavelmente, frequentemente colide com a dureza da vida. Na ausência de argumentos, negam-se os fatos.
 
Na impossibilidade de negar os fatos, transferir a culpa ou responsabilidade parece ser a alternativa mais escolhida. Basta, para isso, encontrar uma narrativa que estabeleça uma relação, ainda que fictícia, entre um terceiro e o problema. Tudo passa, portanto, a ser culpa dos outros, ou consequência de passado muitas vezes nada recente.
 
Tudo falhando, a opção é contar sempre com a existência de uma conspiração por parte de pessoas e entes que jamais são claramente identificados. Assim, todos os males podem ser atribuídos a uma elite (de preferência estrangeira) que, por motivos obscuros, insiste em prejudicar a todos.
 
A capacidade humana de oferecer narrativas diferentes para um mesmo conjunto de fatos é infinita. A esperança é que a capacidade, disposição ou desejo de aceitá-las conheçam limites.
 
Por Elton Simões, formado em Direito (PUC/SP), Administração de Empresas (FGV/SP); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria).
 

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