A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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1 de dezembro de 2012

Violência robustece a economia

 
As duas formas de violência fortalecem a economia global: a não dolosa e a dolosa. A violência não dolosa cresce a olhos vistos. Está na gênese dos indicadores econômicos que projetam países como o Brasil no contexto internacional. A relação de causa e efeito é patente. Ao se globalizar modelo único de sociedade, o mundo ficou mais violento.
 
Para o pensador belga Ernest Mandel, uma coisa está ligada à outra. É a alma do capitalismo consumista. Consumismo é modalidade sutil de violência, porque ignora limites éticos ao incentivar o vício da compra inconsequente. Nunca o ter foi tão superior ao ser. O fascínio do ter perverte o ser e faz dele mero objeto da lógica materialista. Abundância extravagante é paisagem da sociedade de consumo. Sabe seduzir para roubar os parcos recursos da economia doméstica. O gasto desnecessário ganhou status de avanço social. Poupar é retrato do passado. Em breve, será enquadrado como ato lesivo à cidadania.
 
Não se admite discutir outro modelo de sociedade que não a de consumo. Considera-se inimaginável um mundo feliz sem o entulho da mercadoria supérflua. Promoção humana virou sinônimo de acúmulo de bens materiais, não de intelecto. Educação não se cultiva, compra-se. Leitura já não requer concentração, só digitação em parafernálias mais atraentes que o conteúdo dos textos. Inclusão social cedeu lugar à inclusão digital. A era do cérebro substitui-se pela era do dedo. Escola é rota para concursos, não mais templo da formação em humanidades. Ética é utopia poética, nada mais.
 
Elites regozijam-se diante da facilidade em navegar nas ondas seguras do poderio negocial entranhado na cultura dos tempos modernos. A violência não dolosa do poder dominante multiplica fortunas com rapidez jamais vista. Tudo é lucro. A liberdade de exploração é plena. Qualquer sorte de emprego é essencial. Não importa o valor do salário pago nem o que produz. O recurso do crédito é a solução mágica. Incha o ego e o bolso do credor. Aniquila o devedor. O que conta é o número crescente de escravos do consumo. O resto é balela moral de mentes ultrapassadas.
 
O cenário urbano de hoje é fotografia do involucionismo da espécie. Ruas, praças, avenidas, calçadas e demais espaços públicos já não são a mesma coisa. Converteram-se em pátios de montadoras repletos de automóveis que transitam com a velocidade das antigas carroças. As rodovias são túneis da morte. No ano passado, 42 mil brasileiros morreram em acidentes de trânsito. Nada disso importa. Vender carros é a meta a ser realizada a qualquer preço, inclusive ao da propaganda enganosa que nunca mostra o automóvel circulando morosamente nas centenas de quilômetros de lentidão que desqualificam o cotidiano das cidades. Transporte coletivo de qualidade é conversa para boi dormir. Não aquece a economia. É projeto que todos os governos brasileiros trancaram na gaveta. Corre risco de ir para o lixo. A indústria automobilística comanda o espetáculo nas ruas e governa o país nos bastidores.
 
Até o comércio rompeu as barreiras que racionalizavam sua expansão. Vale tudo. O pobre e despojado menino Jesus, cujo nascimento se comemorava no Natal, foi esquecido. Envelheceu na figura do Papai Noel, que lhe roubou a cena do presépio. Uma árvore congestionada de atrativos de consumo tornou-se símbolo daquela data. O próprio calendário mudou. O preparo para as vendas natalinas foi antecipado. Começa em outubro. É a estratégia de apropriação do 13º salário dos trabalhadores. Bonecos gigantes de Noel povoam marquises de lojas para estimular o sonho consumista das pessoas. Forma dissimulada de violência, bem aceita pelos códigos da democracia republicana em vigor.
 
Segundo verbo em moda, a violência dolosa também robustece a economia. Crimes de qualquer natureza têm valor econômico. Geram empregos; expandem a indústria da segurança; justificam aumentos de efetivos policiais, compra das armas e viaturas, construção de presídios, aquisição de câmeras e outros equipamentos. Sem falar no atendimento médico-hospitalar das vítimas, atividade que desdobra outro tanto de energia econômica. Não por acaso, a mídia televisiva explora imagens da violência dolosa que, estimulada, faz subir o PIB. O Brasil caminha para posição de quinta economia do mundo. Resta saber se o fato de ser um dos países mais violentos do planeta é causa ou consequência da sua evolução econômica. Se for causa, o modelo de sociedade é condenável. Se consequência, urge mudá-lo. Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.
 
Por Dioclécio Campos Jr., Médico e Profesor Emérito da UNB - Jornal "Correio Braziliense" de 22/11/12.

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