A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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5 de março de 2008

Lições para governantes


Em Portugal, será lançado o primeiro dos 15 volumes, resgatando a vasta obra na forma como foi escrita e corrigida pelo padre Antonio Vieira. A propósito, Vieira alia a beleza estética e o vigor retórico dos sermões às reflexões de teologia política, combinando a virtude cristã com razões de estado sem condenar o cálculo político na associação entre "a política do céu" e "a política das obras". Nele, pois, a ética cristã e a ética política não ocupam esferas autônomas, como virá a acontecer na obra notável de Maquiavel.

Nele, palavra e ação, elementos indissociáveis, levaram Vieira aos tribunais da Inquisição, à prisão e à privação da "voz ativa" e da "voz passiva". Como o mais racionalista dos cristãos e o mais cristão dos racionalistas, é possível extrair de Vieira reflexões de grande serventia e atualidade para os políticos e, sobretudo, para os governantes.

Nesse sentido, tome-se como exemplo o sermão do bom ladrão pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, ano 1655 que começa por dizer que "Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim, que lá se havia de pregar e não aqui". Mais adiante, usa a advertência para evitar comparações infundadas: "Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isso é o que hei de pregar."

E quem são os verdadeiros ladrões? Citando São Basílio Magno, afirma Vieira: "Os ladrões que mais própria e dignamente merecem esse título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, já com manha, com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo dos seus riscos, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam (...). Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos."

Sobre os que furtam a partir do ofício: "Uma vez porque furta o ofício, e outra vez pelo que há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação (...) Pois se eles furtam com os ofícios, e os consentem e conservam nos mesmos ofícios, como não hão de levar consigo ao inferno os que os consentem? (...). De maneira que, em vez de o ladrão restituir o que furtou no ofício, restitui-se o ladrão ao ofício, para que furte mais!"

Recorre a Isaías para definir os príncipes infiéis e companheiros de ladrões: "Os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por quê? São companheiros dos ladrões porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões porque os consentem; são companheiros dos ladrões porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendem; e são finalmente seus companheiros porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo."

Vieira arremata, apontando a circunstância da "gravíssima culpa": "Se estes ladrões forem ocultos, e o que corre e concorre com eles não os conhecera, alguma desculpa tinha; mas se eles são ladrões públicos e conhecidos, se roubam sem rebuço e a cara descoberta, se todos os vêem roubar, e o mesmo o consente e apóia, o está vendo: que desculpa pode ter diante de Deus e do mundo?"

Pesado e atual, não? Vieira oferece uma leitura mais leve para o período quaresmal: o sermão da Quarta-Feira de Cinzas. É sobre a natureza do pó que somos e do pó que reverteremos. Com a permanente lembrança: memento homo (lembra-te de que és homem).

Por GUSTAVO KRAUSE, advogado, foi prefeito de Recife, governador de Pernambuco, deputado federal, ministro da Fazenda, do Desenvolvimento Urbano e do Meio Ambiente. Publicado no jornal O Globo de 29/2/2008.

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