Byung-Chul Han descreve, em A Sociedade do Cansaço, uma sociedade exausta pelo excesso de desempenho, pela pressão constante e pela incapacidade de desacelerar. Estudiosos da psique acrescentam que esse mesmo cenário produziu outra patologia social: a síndrome do pavio curto. Nunca se falou tanto em saúde mental e, paradoxalmente, nunca foi tão comum encontrar pessoas incapazes de suportar uma simples contrariedade.
Freud já advertia que a civilização só é possível porque o ser humano aprende a conter seus impulsos. Viver em sociedade significa renunciar à satisfação imediata de muitos desejos, suportar frustrações e controlar a própria agressividade. Em outras palavras, a vida civilizada exige aquilo que hoje parece cada vez mais raro: autocontrole.
Basta uma fechada no trânsito, uma discussão banal, uma fila demorada, uma resposta atravessada. O que antes terminava em um desentendimento hoje, cada vez mais, termina em violência.
É justamente essa capacidade de conter os próprios impulsos que separa quem está apto a viver em sociedade de quem representa um risco para ela.
O Tribunal do Júri conhece bem essa realidade.
Grande parte dos homicídios julgados diariamente não nasce de grandes conflitos. Nasce de pequenas intolerâncias. Uma ultrapassagem. Um desentendimento entre vizinhos. Um olhar atravessado. Uma dívida pequena. Um xingamento. Cinco minutos depois, talvez ninguém mais se lembrasse da discussão. Mas alguém decidiu resolvê-la da pior forma possível: matando.
Depois, em plenário, quase sempre surge a mesma tese: homicídio privilegiado, porque, segundo a defesa, o acusado teria agido sob o domínio de violenta emoção logo em seguida à injusta provocação da vítima.
É aqui que mora um grande equívoco. O homicídio privilegiado, como o próprio nome revela, foi concebido para situações excepcionais. Não para justificar explosões de raiva próprias de quem perdeu a capacidade de conviver em sociedade.
Violenta emoção não é sinônimo de pavio curto, de ira momentânea.
A lei não foi criada para reduzir a pena de quem mata porque foi contrariado. Ela contempla circunstâncias humanas extraordinárias, nas quais a censura moral da conduta efetivamente se mostra menor. É o caso de quem age por relevante valor moral, como na abreviação do sofrimento de um doente terminal (eutanásia). Ou por relevante valor social, diante de situações absolutamente excepcionais (eliminação de um terrorista). Ou, ainda, daquele que reage imediatamente a um fato gravíssimo, sob uma emoção verdadeiramente avassaladora.
Também é possível compreender, dentro dos estreitos limites da lei, a reação de um pai que logo em seguida em presenciar o estupro da própria filha e, tomado por uma emoção devastadora, age imediatamente. São acontecimentos extremos, incompatíveis com a normalidade da vida cotidiana.
Nada disso se confunde com matar porque foi fechado no trânsito, porque recebeu uma ofensa, porque perdeu uma discussão ou porque seu orgulho foi ferido.
Quando o homicídio privilegiado deixa de ser exceção e passa a ser utilizado para explicar crimes decorrentes da mera incapacidade de controlar a própria raiva, o Direito Penal começa a transmitir uma mensagem perigosa. A de que perder o controle pode funcionar como circunstância favorável ao homicida.
Mas há outro aspecto que merece reflexão.
Quem mata porque não consegue dominar um acesso de raiva não revela, necessariamente, menor culpabilidade. Em muitos casos, revela justamente um grave déficit de autocontrole. E quem não aprende a controlar os próprios impulsos tende a repeti-los diante da próxima grande frustração.
A redução da pena, nesses casos, pode aliviar a resposta estatal, mas não resolve a origem do problema.
Uma sociedade civilizada não se mede pela ausência de conflitos. Ela se mede pela capacidade de resolvê-los sem violência.
Controlar a raiva não é apenas uma virtude pessoal. É uma condição para a vida em comunidade.
Ao que tudo indica, o maior desafio do nosso tempo não seja combater apenas a criminalidade, mas recuperar uma qualidade humana que a civilização sempre exigiu: a capacidade de suportar a frustração sem transformar o outro em inimigo, porque, quando qualquer contratempo basta para justificar uma morte, o problema já não é apenas individual. É a própria civilização que começa a perder o controle.
