Na Itália, sobretudo nas ruas de Bolonha, há uma figura curiosa e quase folclórica: o “umarell”, o velho aposentado que passa horas observando obras, mãos às costas, olhar atento, sempre pronto a dar um palpite. Não é o engenheiro, não é o operário, mas comporta-se como um fiscal espontâneo da construção. Vê detalhes que escapam aos outros, intui erros, sugere caminhos. Com o tempo, deixou de ser apenas um tipo urbano para se tornar um símbolo, o do observador experiente que, mesmo fora da estrutura formal, influencia o resultado final.
No Tribunal do Júri, também há seus “umarells”. Não nas ruas, mas nos corredores, nos bancos do plenário, nas pausas silenciosas entre uma fala e outra. São aqueles que acompanham julgamentos por gosto, por memória, por instinto. Não decidem, não sustentam, não sentenciam, mas percebem o que muitos não veem: o momento em que a palavra perde força, o instante em que o jurado se desconecta, o detalhe que pode alterar um veredicto. Assim como na obra italiana, no Júri a construção não é apenas técnica, é humana. E, por vezes, é o olhar silencioso desse observador que revela onde a estrutura pode ruir ou se firmar.
Chamavam-no de Amadeo, mas poucos sabiam seu nome. No saguão antigo do Tribunal do Júri de São Paulo, entre colunas altas e o salão dos passos perdidos, era apenas “o Umarell do Júri”.
Aposentado havia anos, terno gasto, gravata sempre ligeiramente torta, mãos cruzadas nas costas, Amadeo ocupava o mesmo lugar, todos os dias de julgamento. Não perdia uma sessão. Chegava cedo, antes mesmo do oficial de justiça abrir as portas, e se posicionava próximo à entrada do plenário, como quem guarda um segredo antigo.
Dizia-se que fora escrevente, outros juravam que estudara Direito sem jamais concluir. Ninguém sabia ao certo. O que todos sabiam era que Amadeo entendia de Júri. Era um “jurista”.
Nos anos 60, quando o país fervia em tensões e silêncios impostos, ele observava tudo com atenção cirúrgica. Não interrompia. Não confrontava. Apenas esperava o momento certo. E o momento certo, para ele, sempre era o intervalo.
Os advogados saíam do plenário, suados, carregando papéis e dúvidas. Era então que Amadeo se aproximava, em passos lentos, como quem não quer incomodar, mas já incomodando. “Doutor…”, dizia, num tom baixo, quase respeitoso. “Cuidado com a linha do argumento. O senhor está batendo muito na prova testemunhal e esquecendo do coração dos jurados.”
O advogado, às vezes irritado, às vezes curioso, olhava de cima a baixo aquele senhor desconhecido. “E o senhor entende disso?”. Amadeo não respondia diretamente. Apenas inclinava levemente a cabeça.
“Júri não é só prova. É memória, é medo, é emoção. O senhor precisa dar um rosto mau à vítima e emprestar uma alma boa ao réu. Sem isso, o discurso não emplaca.”
Nos anos 70, com o país ainda mais endurecido, os julgamentos ganhavam contornos tensos. Crimes passionais, esquadrão da morte, execuções silenciosas, movimento feminista, histórias que chegavam ao plenário carregadas de sombras. E lá estava Amadeo, imóvel, assistindo tudo.
Alguns começaram a ouvi-lo. Um jovem advogado, em seu primeiro Júri, perdido entre códigos e cortisol, aceitou um conselho. “Os jurados não prestaram atenção nas suas palavras. Você tem que mudar a postura. Volte diferente ou a vaca irá pro brejo. Não leia. Olhe para eles, mire nos olhos, tente descobrir a cor dos olhos de cada jurado. Fale como se estivesse pedindo ajuda.”
Na tréplica, mudou o tom. Abandonou as folhas, falou pausado, humano, direto. Quando terminou, o silêncio no plenário era diferente: denso e eloquente. O veredicto veio minutos depois: absolvição.
Na saída, o advogado procurou Amadeo. Queria agradecer. Não o encontrou.
Dias depois, lá estava ele novamente, no mesmo lugar, mãos às costas, como se nunca tivesse saído.
Com o tempo, tornou-se figura conhecida. Promotores Públicos também passaram a escutá-lo, ainda que fingissem indiferença. “Doutor, o senhor está certo na lei… mas no Júri, estar certo não basta. É preciso ser compreendido”. E completava: “E ser compreendido, às vezes, é saber falar a linguagem do povo. Seja menos técnico”.
O Juiz Presidente solicitava, com discrição, que lhe servissem água e café.
Ninguém jamais soube quantos julgamentos Amadeo assistiu. Nem quantos veredictos ajudou a moldar, silenciosamente, entre um intervalo e outro.
Certo dia, simplesmente não apareceu. O porteiro estranhou. O Juiz perdeu sua referência na assistência. Os advogados comentaram. Alguns jurados, que já o reconheciam de vista, sentiram falta daquele homem parado, observando tudo como se enxergasse além.
Mas, curiosamente, naquele julgamento, algo mudou. Os oradores agiram mais simples. Olharam mais nos olhos. Mediram melhor as palavras. Como se, de algum modo, Amadeo ainda estivesse ali, de pé, mãos às costas, vigiando não a obra, mas a própria construção da justiça.
Esta foi a sua herança invisível: lembrar que o Tribunal do Júri não se decide apenas nos autos, mas no encontro entre a palavra e a consciência, entre a técnica e a humanidade. Amadeo nunca votou, nunca falou em plenário, nunca assinou uma sentença, mas ensinou, a quem quis enxergar, que o verdadeiro julgamento começa quando alguém é capaz de sentir o que diz. No silêncio de sua ausência, permaneceu sua lição: no Júri, não basta convencer, é preciso tocar. Ler as entrelinhas da sessão de julgamento. Tocar na alma dos jurados. E é nesse ponto, onde a razão se funde com o coração, que a justiça, enfim, se constrói.
Por César Danilo Ribeiro de Novais, Promotor de Justiça do Tribunal do Júri e autor do livro “A Defesa da Vida no Tribunal do Júri” (4a ed. - 2025).

