O Tribunal do Júri não é prova de resistência para jurados. Sustentação oral não se mede no relógio. Mede-se na capacidade de informar, convencer, persuadir e tocar quem está ouvindo.
Existe uma ilusão muito comum no plenário: a de que falar muito demonstra preparo ou superioridade técnica. Nem sempre. Muitas vezes, o excesso de fala produz exatamente o efeito contrário. O orador começa bem, prende a atenção, desenvolve uma boa linha argumentativa, mas, incapaz de sintetizar, ultrapassa o ponto ideal da fala e transforma a sustentação em cansaço.
Os australianos têm uma expressão interessante para isso: earbashing. Algo como “surrar os ouvidos” de quem escuta.
Earbashing ocorre quando a sustentação deixa de ser comunicação e passa a ser desgaste. Repetições desnecessárias, longas voltas sobre o mesmo assunto, detalhes irrelevantes, excesso de citações, assuntos periféricos, leitura de peças, insistência em argumentos que já foram compreendidos. O jurado começa a entrar em fadiga cognitiva.
O problema é que o jurado cansado não presta mais atenção nem no que realmente importa.
Depois de determinado tempo, a fala perde impacto. A palavra deixa de construir convencimento e passa apenas a gerar antipatia ou incômodo. O jurado continua olhando para o orador, mas mentalmente já se desconectou da sustentação. Está pensando nos afazeres domésticos e profissionais. E talvez esse seja um dos maiores riscos da tribuna: continuar falando para pessoas que já deixaram de ouvir.
É preciso semancol. Há profissionais que transformam o plenário numa espécie de despejo integral dos autos. Querem falar tudo. Absolutamente tudo. Como se o bom desempenho dependesse da quantidade de informações verbalizadas. Não depende.
No Júri, menos pode ser mais. Os jurados normalmente levam poucas ideias centrais para a sala de votação. E são essas ideias que precisam ser trabalhadas com clareza, lógica e força emocional. Argumentos fortes perdem potência quando ficam escondidos no meio a argumentos desnecessários.
Sustentação oral exige seleção. Nem toda contradição merece destaque. Nem toda provocação ex adversa exige resposta. Nem todo argumento oposto merece meia hora de combate. Há momentos em que insistir demais num ponto acaba valorizando algo que originalmente tinha pouca relevância.
O jurado não é obrigado a admirar resistência vocal de ninguém.
A grande oratória do Júri está muito mais ligada à precisão do que ao excesso. Falar pouco e falar bem exige domínio do caso, maturidade e segurança. A prolixidade, às vezes, nasce justamente da insegurança de quem acredita que precisa continuar falando para parecer convincente.
No plenário do Júri, existe um momento certo de terminar e percebê-lo talvez seja um dos maiores desafios de um orador, porque palavras em excesso podem matar a atenção do jurado antes mesmo de começar a convencê-lo de que a razão está ao seu lado.
Por César Danilo Ribeiro de Novais, Promotor de Justiça do Tribunal do Júri e autor do livro “A Defesa da Vida no Tribunal do Júri” (4a ed. - 2025).