A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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17 de março de 2008

Lançamento: Documentário 'Juízo' traz debate sobre tragédia sem solução


SÃO PAULO - Maria Augusta Ramos fez dois documentários seguidos - Justiça e Juízo -, mas se você pedir a ela que se defina ela não dirá que é documentarista. Maria Augusta é cineasta. Seus documentários não possuem entrevistas. O que lhe interessa é a observação, aliada ao que ela chama de ‘teatro da Justiça’. Tendo feito música antes de se interessar pelo cinema, ela acha que vem daí uma das características fortes do seu trabalho - o gosto pela elaboração formal. Tudo isso, teatro, observação, se faz presente em Juízo, o documentário que Maria Augusta Ramos dedicou aos menores infratores e que estréia na sexta, 14, na cidade. Juízo chama a atenção para a situação real dos menores infratores e convida à reflexão. Para Maria Augusta, o que ela faz é humanizar a Justiça. A diretora talvez não conseguisse atingir seu objetivo se não tivesse a juíza Luciana Fiala julgando as audiências que ela filma.

Veja também:
Trailer de 'Juízo'

O filme fala de menores, da sua condição socioeconômica. Deixa claro que a sociedade que exige juiz de seus menores infratores não possui, ela própria, juízo para encarar o problema. Porque, como diz a juíza, "a chance de recuperação desses jovens é remota. Exigiria uma ação conjunta dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de suporte médico e psicológico". Isso exige vontade política, sem a qual as medidas aplicadas caem no vazio. A juíza sabe disso, mas cumpre seu papel. Naquelas audiências, ela representa a própria sociedade.

Luciana Fiala parece perfeita para sustentar uma fala de Eduardo Coutinho, que disse, sobre Jogo de Cena, que somos todos atores, nem que seja de nós mesmos. Até onde se lembra, Luciana sempre foi autoritária. No começo, queria ser médica, para cuidar do pai, um advogado que nunca exerceu a profissão, preferindo ser industrial. Este homem exigia muito da filha. Luciana aprontou bastante, mas, como ela diz, sempre apresentou bons resultados. O desejo de ser médica foi substituído pelo de ser magistrada. Hoje, ela é juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Rio, atuando na comarca de Paracambi. Quando Maria Augusta fez seu filme, Luciana era juíza auxiliar da 2ª Vara da Criança e do Adolescente, do Rio.

De onde vem essa capacidade de julgar e aplicar broncas nessas crianças? Nem a juíza Luciana sabe. Mas nunca duvidou de sua capacidade de julgar. Se você lhe pergunta o que mais gosta de fazer, ela responde: "Colocar bandidos na cadeia." Foi isso o que ela sempre quis e para isso se preparou. Luciana freqüentou lugares que ninguém imagina. Submundo mesmo. E não chegava como ‘estrangeira’, o que produziria rejeição. Ela sempre quis se integrar para observar. Não acha que, por serem menores, deve ser branda em seus julgamentos. Mas Luciana também acha que essas crianças e adolescentes temperaram sua dureza. Por mais reduzida que seja a chance de recuperação, ela existe. Menores infratores, mesmo que eventualmente sejam perigosos, não são criminosos adultos. Neles, a juíza Luciana ainda pode aplicar suas broncas.

Sua crença é a de que o contexto socioeconômico em que vivem as crianças e os adolescentes influi na ida deles para a criminalidade. Mas a juíza Luciana tem a sua máxima: "Não é porque é pobre que tem de ser bandido." Outra crença profunda é no papel dos pais. A educação recebida dos pais é importante. Ambiente familiar, estímulo à cobrança e à fiscalização nos estudos e no cumprimento de regras é o que falta aos menores infratores. Ela se empenha para ficar com os filhos - uma garota de 14, um menino de 8 e outro do qual estava grávida durante a realização (e que nasceu de seis meses!). Empenha-se, mas admite que não consegue ficar tanto quanto gostaria. "Minha filha diz que sou chata, mas um dia ela vai compreender." Já está compreendendo. Na escola, a garota teve de fazer uma redação sobre alguém de sucesso. Escolheu a mãe. "É gratificante saber que estou dando bom exemplo aos meus filhos." Mas a mãe reflete sobre outra coisa. Preocupada em dar broncas nos filhos dos outros - no tribunal -, não deu aos próprios filhos todas as broncas que acha que eles talvez merecessem.

Nada do que ela diz no filme foi planejado. "Sou assim mesmo, e nem teria tempo, pois as audiências são muitas e não me permitem analisar os casos com antecedência." O excesso de exposição pode gerar mal-entendidos, mas ela acha que não está interferindo em seu trabalho. De qualquer maneira, num debate realizado na OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, na segunda-feira, um colega magistrado observou que a juíza está subvertendo uma das regras da função. O juiz julga e ela está abrindo espaço para que as pessoas a julguem.

Como diretora, Maria Augusta não quer julgar ninguém - nem os menores nem seus pais e muito menos a juíza. A admiração é recíproca entre as duas. A juíza Luciana diz que o filme trata de um tema árido com leveza. Para a diretora, a filmagem de mais este capítulo do teatro da Justiça trouxe problemas que seu documentário anterior não teve. Como é proibido, por lei, filmar os rostos de menores infratores, Maria Augusta valeu-se de um artifício. Ela filmou as audiências - dez, das quais saíram sete personagens - sempre com duas câmeras. Uma, centrada na juíza e na promotoria. A outra, na defesa e nos familiares dos menores. Maria Augusta filmou cada audiência uma única vez, mas depois substituiu o menor infrator por um ator, não um ator profissional, mas na maioria das vezes outro menor, de idade aproximada e com condições socioeconômicas parecidas, senão exatamente iguais, o que lhes permite reproduzir os textos dos garotos e garotas levados a juízo com conhecimento de causa.

Esses menores substitutos dos infratores foram escolhidos com a ajuda das comunidades de Bangu e Cidade de Deus. Graças ao artifício - o campo é documental e o contracampo, ficcional -, Juízo trafega nas bordas do documentário e da ficção. Maria Augusta não acha que o recurso mudou seu cinema, ou possa empurrá-la para a ficção. "Todo mundo vive me cobrando uma ficção", ela confessa. A importância, para Maria Augusta, é que ela teve de observar mais, prestando atenção nos detalhes. Seu medo era de que a coisa não funcionasse. Funcionou. Maria Augusta sabe que a vida de cada um desses jovens daria outro filme. No limite, ela atinge o que queria - a humanização que está na base do seu projeto de cinema. Se não houver mais tribunais nos próximos filmes - ela acredita que não -, seu compromisso com o humano não vai mudar.

Juízo (Brasil/ 2007, 90 min.) - Documentário. Dir. Maria Augusta Ramos. 10 anos. Cotação: Bom

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