A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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21 de julho de 2007

A Filosofia entre a Religião e a Ciência


Bertrand Russell (*)

Os conceitos da vida e do mundo que chamamos "filosóficos" são produto de dois fatores: um, constituído de fatores religiosos e éticos herdados; o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar "científica", empregando a palavra em seu sentido mais amplo. Os filósofos, individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas é a presença de ambos que, em certo grau, caracteriza a filosofia.

"Filosofia" é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empregá-la em seu sentido mais amplo, como procurarei explicar adiante. A filosofia, conforme entendo a palavra, é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Como a teologia, consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação. Todo conhecimento definido - eu o afirmaria - pertence à ciência; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a filosofia. Quase todas as questões do máximo interesse para os espíritos especulativos são de tal índole que a ciência não as pode responder, e as respostas confiantes dos teólogos já não nos parecem tão convincentes como o eram nos séculos passados. Acha-se o mundo dividido em espírito e matéria? E, supondo-se que assim seja, que é espírito e que é matéria? Acha-se o espírito sujeito à matéria, ou é ele dotado de forças independentes? Possui o universo alguma unidade ou propósito? Está ele evoluindo rumo a alguma finalidade? Existem realmente leis da natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? É o homem o que ele parece ser ao astrônomo, isto é, um minúsculo conjunto de carbono e água a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é ele o que parece ser a Hamlet? Acaso é ele, ao mesmo tempo, ambas as coisas? Existe uma maneira de viver que seja nobre e uma outra que seja baixa, ou todas as maneiras de viver são simplesmente inúteis? Se há um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira realizá-lo? Deve o bem ser eterno, para merecer o valor que lhe atribuímos, ou vale a pena procurá-lo, mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte? Existe a sabedoria, ou aquilo que nos parece tal não passa do último refinamento da loucura Tais questões não encontram resposta no laboratório. As teologias têm pretendido dar respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua própria segurança faz com que o espírito moderno as encare com suspeita. O estudo de tais questões, mesmo que não se resolva esses problemas, constitui o empenho da filosofia.

(*) Bertrand Russell nasceu a 18 de Maio de 1872, em Ravenscroft, Monmouthshire, Inglaterra. Foi o mais novo dos três filhos do Visconde de Amberley, filho de Lorde John Russell, e de Kate Stanley, filha do Barão Stanley de Alderley.


Cedo ficou órfão de pais, pelo que a sua educação foi confiada à avó, condessa Russell, que lhe dá uma educação cristã.Bem cedo revelou uma aptidão excepcional para os estudos matemáticos: “Com a idade de onze anos, conheci Euclides, com o meu irmão como tutor. Este foi um dos grandes acontecimentos da minha vida, tão estonteante como o primeiro amor. Não tinha imaginado que havia algo tão delicioso no mundo. Desde aquele momento até ter trinta e oito anos, a matemática foi o meu principal interesse e a minha principal fonte de felicidade.”

Mais tarde, o seu desejo de aprofundar verdades matemáticas, leva-o a interessar-se profundamente pela filosofia. Aos 18 anos abandona a fé cristã e ingressa no Trinity College de Cambridge, dedicando-se arduamente à matemática e à filosofia. Doutorou-se com a apresentação da tese "An Essay on the Foundations of Geometry" (1897). Em 1896 lança o seu primeiro livro "German Social Democracy" e em 1900 publica uma segunda obra "A Critical Exposition of the Philosophy of Leibniz". Nessa altura iniciou-se um dos períodos mais importantes e decisivos da sua vida profissional, que está na origem da publicação de um estudo magistral intitulado por "The Principles of Mathematics" (1903). Nesta obra demonstra a identidade entre esta ciência e a lógica formal, defendendo o princípio de que os conceitos matemáticos se podem deduzir de alguns simples axiomas de lógica. Foi através do contacto com a obra de Frege que Russell procurou construir toda a matemática sobre bases lógicas, convencido de que ambas são idênticas. Os postulados fregianos, adoptados primeiramente por Peano, foram incorporados por Russell, que estendeu as teses logísticas de Frege à geometria e às disciplinas matemáticas em geral. Mais tarde, em colaboração com Alfred North Whitehead, publicou em 3 volumes uma nova obra cujo o título é "Principia Mathematica" (1910). Neste livro são desenvolvidas idéias subjacentes ao anterior. É um instrumento de grande fecundidade para a solução de numerosos problemas de filosofia da Matemática. A sua publicação permite chamar a atenção mundial sobre os seus autores. Mais tarde, Russell foi convidado para dar uma série de lições na Universidade de Harvard e publica um novo trabalho "Our Knowledge of the External World" (1914). Com o desencadeamento da primeira grande Guerra Mundia, Russell decidiu iniciar um movimento pacifista de acordo com as suas convicções. Em 10 de Novembro de 1950 Russell foi premiado com o prêmio Nobel relativamente a numerosos trabalhos da sua autoria. Faleceu a 2 de Fevereiro de 1970.

Obras: Princípia Mathematica (1910, em colaboração com Whitehead), Problemas da Filosofia (1911), O Nosso Conhecimento do Mundo Externo (1914), Pratica e Teoria do Bolchevismo, História da Filosofia Ocidental (1946); Exposição Crítica da Filosofia de Leibniz; Introdução à Filosofia da Matemática; etc.

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