A curiosidade se instala
em uma pequena e pacata cidade situada na Europa Oriental quando ali é
anunciado a exibição de um espetáculo circense estrelado por um mágico, uma
bela trapezista e um gato com óculos escuros. Em seguida, a tranquilidade foge
daquela comunidade quando, em meio à exibição do show, os óculos são tirados do
gato e as pessoas vistas por ele, instantaneamente, mudam de cor conforme são
de verdade: as infiéis ficam amarelas, as desonestas cinzas, as apaixonadas
vermelhas e as mentirosas roxas. Instala-se o tumulto. Todos correm e o gato se
protege de possíveis ataques. Alguns querem resgatá-lo e protegê-lo; outros
capturá-lo e matá-lo.
Em síntese, essa é a
história fantástica do filme Az prijde
kocou, cujo título em português é Um
dia, um gato, produzido em 1963 na República Tcheca, dirigido por Vojtech
Jasný e vencedor do prêmio especial do Júri no Festival de Cannes daquele mesmo
ano.
O enredo serve de boa
metáfora para o cotidiano nacional contemporâneo no que se refere à ação do
Ministério Público e a consequente reação por parte daqueles que defendem o status quo ante.
Desde seu descobrimento,
a coroa portuguesa buscou extrair do Brasil suas riquezas em benefício próprio.
O olhar sempre foi extrativista como sustentáculo do mercantilismo português.
Nessa atmosfera, o público e o privado nunca foram como água e óleo, pois
sempre se misturaram. Há um claro vício de origem, em que o patrimonialismo foi
plantado, regado, adubado e multiplicado. A corrupção é tão antiga quanto o
descobrimento desta terra de papagaios. E ela, infelizmente, continua a grassar
desbragadamente.
Por muitos anos, a lei
perseguiu ferrenhamente os descamisados ocupantes da senzala. A partir da
reconfiguração do Estado nacional com o advento da carta de outubro de 1988,
especificamente com a nova formatação do Ministério Público, as coisas começaram
a mudar.
Não há dúvida ter o
Ministério Público sofrido grande evolução em termos institucionais ao longo
das Constituições. De procurador do rei, no Império, foi alçado ao posto de
guardião do regime democrático e defensor da sociedade, com a edição da atual
Constituição Federal.
A partir de então, com
todas as garantias de poder, o Ministério Público tem enfrentado os donos do
poder político e econômico, que até pouco tempo, instalados em suas casas
grandes, eram intocáveis. Pessoas que um dia ocuparam a chefia do Executivo
estão presas. Igualmente, no Legislativo. Megaempresários também. Houve a
democratização do banco dos réus.
In a nutshell,
a instituição passou a jogar luz sobre as trevas e as falcatruas engendradas
nos porões do poder começaram a ser conhecidas por todos os brasileiros.
O Ministério Público tem
reivindicado o Brasil que a Constituição de 1988 prometeu. Nada mais que isso.
É, por isso mesmo, parte vital da armadura de defesa da sociedade.
Todavia, as forças
feridas, com todas as forças, têm se levantando contra a instituição.
Retaliações legislativas são tramadas e estão em gestação silenciosa no Congresso
Nacional, tudo com a clara agenda parlamentar de enfraquecer e manietar a
atuação do defensor da sociedade.
Querem, enfim, abrir
ofensiva contra o “gato”!
E o ataque ao “gato”
enfraquece a tutela do corpo social brasileiro. Bem entendido: o enfraquecimento
do Ministério Público fragiliza a defesa da sociedade.
Na Idade Média, nasceu a
lenda de que o gato tem sete vidas, ou seja, é imortal. Vítima dos
inquisidores, havia um esforço concentrado em exterminá-lo. Apesar disso, a
população dos pequenos felinos só cresceu. Isso porque existiam pessoas que atuavam
na sua defesa e zelo.
O Brasil atual reclama
que a lenda se torne realidade para que o gato – o Ministério Público –
continue desenvolvendo seu trabalho hercúleo na defesa da sociedade, com todos
os instrumentos e poderes para persistir na peleja contra à corrupção, à
improbidade administrativa, à criminalidade etc. e, como consequência, buscar a
punição daqueles que tratam a res publica
como se fosse cosa nostra.
Para tanto, os políticos
comprometidos com o bem comum, os movimentos comunitários, a imprensa
socialmente responsável e os cidadãos brasileiros devem estar sempre atentos e
prontos a defenderem a instituição que tutela os interesses sociais, com olhos
voltados à construção de um país mais justo, ou menos injusto.
Que haja, então, olhos
vivos de todos para que possam cuidar e proteger da instituição do Ministério
Público, pois só assim ela poderá continuar a sua missão patriótica de combater
os malfeitos e defender o corpo social em busca de um Brasil melhor.
Por César Danilo Ribeiro
de Novais, Promotor de Justiça em Mato Grosso, Presidente da Associação dos Promotores do Júri e Editor do blogue Promotor de Justiça.

Muito bom! Só não pude compartilhar em outras redes, o q acho oportuno.
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