30 de janeiro de 2017

Morrer no Brasil*



Morre 

(em mim)
meu país.
Morre 
com meus amigos 
que morrem
morre em cada dia 
que morre
morro 
em cada notícia de jornal
morro
a cada decreto espúrio
que me expropria o mais banal
morro
em minha casa
nas favelas e morros.
Morre (em mim ) um sonho de país
uma ilusão histérica ou histórica.
Como um doente terminal, cabeça lúcida
vê fanar-se canceroso o corpo corroído
glânglios inchados
nódulos nos seios
avanço lento para a treva
em em vez do romântico arrebol
Vivo
Num país que me des/mata
respiro
num país que me enfumaça
acuado
num país que se sequestra
e como resgate exige
minha alma selvagem em pêlo.
Humildemente me recolho.
Procuro um colo ou ombro.
Irmão, eu choro 
Um amazônico desconsolo.

*Poema de 1992.
Affonso Romano Santanna

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