Tênue rei,
oblíquo bispo, encarniçada
rainha, peão
ladino e torre a prumo
sobre o preto
e o branco de seu rumo
buscam e
travam sua batalha armada.
José Luis Borges[1]
Uma caixa de madeira contendo 32
peças: 2 reis, 2 rainhas, 4 torres, 4 cavalos, 4 bispos e 16 peões, divididos
nas cores preta e branca. Quando aberta, vira um tabuleiro com 64 quadrados
intercalados por essas mesmas cores. É, como diziam os antigos, o jogo dos reis, o xadrez.
É fora de dúvida que o xadrez é uma boa
metáfora para a vida. Desde a sua origem, esse jogo reclama a ideia de combate.
Cada peça é carregada de qualidades, defeitos, simbologia e missão. Cada
partida é uma batalha, cercada de drama, expectativa, angústia, tristeza,
alegria, emoção, exaltação, contenção, tensão e apreensão. Jogadas exigem
escolhas, algumas delas fatais. Uma linha muito tênue segrega a escolha certa
da errada. Um simples vacilo pode significar um adeus, o fracasso. Mas nem
sempre tudo está perdido numa só jogada, porque algumas escolhas, ainda que
erradas, admitem, no curso da partida, a reparação. Outras, não. Infelizmente.
Embora não seja a mais poderosa, o rei
é a peça mais importante. Pode muito bem simbolizar os princípios, valores e
ideais mais relevantes do ser humano. A perda do rei implica na perda do
jogo, do próprio sentido da vida. Não à toa, temos o roque, uma jogada especial que envolve a movimentação de duas peças
no mesmo lance visando proteger o monarca. Movimenta-se a torre e o rei para protegê-lo.
A peça mais poderosa é a rainha, ainda
que não seja a mais importante. É virtuosa, habilidosa e versátil. Perdê-la
traz sério problema ao jogador. Na linha de frente da batalha, vão os peões. É
o poder pulverizado. Pequenas forças unidas. Ao atingir a oitava casa, podem
virar rainha, cavalo, bispo ou torre. Só não se transformam em rei. Rei só há
um.
E as demais peças, o cavalo e o bispo? O
cavalo representa o vigor, que supera obstáculos. Com movimentação em diagonal,
aparece o bispo, que bem representa o poder religioso, longa manus do divino.
O jogo de xadrez, deitado num
tabuleiro, representa a luta travada no cotidiano pela busca dos anseios pessoais ou até mesmo a angústia em sopesar e selecionar, dentre as possíveis,
a melhor escolha frente às adversidades da existência, para a construção do
destino triunfante.
Conforme ensinam Jean Chevalier e Alain
Gheerbrant[2]: “O tabuleiro de xadrez
simboliza a tomada de controle, não só sobre adversários e sobre um território,
mas também sobre si mesmo, sobre o próprio eu, porquanto a divisão interior do
psiquismo humano é igualmente o cenário de um combate.”
E, dentro das variadas instâncias da
sociedade humana, a filosofia do enxadrista também cai como uma luva no
Tribunal do Júri.
Nesse palco de justiça popular, onde há
o julgamento de quem é acusado de atentar contra a existência de outra pessoa,
as escolhas das partes fazem toda a diferença para o resultado da causa.
A investigação, instrução do processo,
preparação do julgamento, seleção do Conselho de Sentença, colheita da prova
oral na sessão de julgamento e os debates finais em plenário reclamam
estratégias especiais de atuação. A palavra mal ajambrada, a indagação defeituosa
ou a linha de argumentação equivocada podem pôr tudo a perder. Por erro de
tática, perde-se a justiça.
Dentro da estrutura judicial, o
Tribunal do Júri, sem dúvida, é o espaço forense que demanda maior estratégia e
planejamento de atuação do lidador jurídico. O Promotor de Justiça e o defensor
devem planejar com esmero a preparação e o desenvolvimento do trabalho para,
desse modo, convencerem o jurado a acolher suas teses.
Assim, Manoel Pedro Pimentel[3] acertou o alvo ao escrever
isto: “um julgamento feito pelo Tribunal do Júri, ao contrário do que muitos
pensam, não é uma loteria. Depende, é certo, de algumas peripécias, mas pode
ser o seguro resultado de uma conduta bem planejada e executada com rigor,
desde a fase do inquérito policial, até o plenário do Júri”.
É o Júri Popular um verdadeiro
tabuleiro de xadrez onde as partes lutam pelo convencimento dos jurados acerca
de suas teses. Luta esta incompatível com o improviso ou amadorismo, que deve
ser muito bem delineada, organizada e planejada com olhos voltados ao lance
fatal do xeque-mate à parte contrária e, por consequência, ao implemento de sua
ideia de justiça ao caso concreto.
A verdade-síntese vem impressa no poema
“Xadrez” da escritora mineira Jussara Neves Rezende[4]:
Peça tocada,
peça mexida:
um movimento
altera toda
a breve história
- breve e única
enquanto é.
Posições trocamos,
colocamo-nos
em xeque,
evitamos
e ansiamos
o lance final.
Que peça tem
o movimento
que preciso?
Bem vista as coisas, conclui-se que cada escolha é
grávida de consequências e o triunfo da justiça no palco dramático do Tribunal
do Júri muito depende das decisões efetivadas pelo tribuno tal qual ocorre com
cada jogador do tabuleiro alvinegro na luta renhida com o exército inimigo e
das pessoas no campo de batalha da vida, com suas agruras e vicissitudes.
Por César Danilo Ribeiro de Novais,
Promotor de Justiça em Mato Grosso, Presidente da Associação dos Promotores do
Júri (Confraria do Júri), Coordenador do Núcleo do Tribunal do Júri do
Ministério Público de Mato Grosso e Editor do blogue Promotor de Justiça.
[1] BORGES, José Luis. Nova antologia pessoal. São Paulo:
Companhia das Letras, 2013, p. 20.
[2] CHEVALIER,
Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de
símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números.
17.ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2002.
[4] REZENDE, Jussara Neves. Minas em mim. Machado, MG: FM, 2001.

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